

Eu passei meses dando personalidade aos agentes, e descobri que tinha posto a função no lugar errado.
Sobre o palco e os bastidores, a função que some junto com quem a vestia, e por que governança é o que sobra quando nada fica implícito.
Tem um erro que só aparece quando o sistema fica grande o bastante para expor a bagunça. Esse levou meses.
Cada agente da casa tinha um personagem: nome, rosto, voz, biografia. E tinha também a função: a missão, as responsabilidades, o que ele entrega, o que pode decidir, com quem pode falar.
As duas coisas moravam no mesmo lugar. No personagem.
Parece natural. É um erro de arquitetura, e eu demorei para ver porque ele é confortável.
01O dia em que ficou evidente
Uma conta quis trocar o personagem de uma área. Manter a função, trocar quem a veste.
Não dava.
Trocar o personagem significava perder a missão, as responsabilidades, as regras e as permissões — porque tudo aquilo estava gravado nele, e não na área.
Era como se, numa empresa de verdade, demitir o gerente apagasse a descrição do cargo.
02Goffman, e o palco que está em todo lugar
Erving Goffman escreveu que a vida social funciona como teatro: existe um palco, onde a pessoa representa um papel, e os bastidores, onde ela não precisa representar. O papel não é mentira — é uma função que existe independentemente de quem a ocupa naquele dia.
É exatamente a separação que me faltava.
O papel pertence à área. Define o que se espera, o que se entrega, o que se pode decidir e o que precisa de aprovação.
O personagem é quem veste o papel hoje. Dá voz, jeito, rosto.
Quando os dois estão colados, trocar a pessoa destrói a função — e foi literalmente o que acontecia no meu sistema.

03A separação, na prática
A função saiu dos personagens e foi para os módulos. Noventa e quatro deles receberam o que antes só existia no agente: missão, pergunta central, responsabilidades, entregas, regras, o que pode decidir, com quem pode falar.
O personagem ficou com o que é dele: nome, rosto, voz, biografia.
E aí a conta passa a poder escolher quem veste cada área, sem perder nada do que a área é.
Tem um detalhe que eu achei bonito e que não estava no plano: depois da separação, ficou visível quanto de cada área estava realmente definido. Com tudo misturado no personagem, uma biografia bem escrita disfarçava uma função vazia. Separado, a função vazia aparece.
Virou uma régua sem querer.
04E no mesmo dia eu achei um buraco de segurança
Essa parte é desconfortável e por isso vai aqui.
Enquanto varria os módulos, encontrei em cinco deles o mesmo defeito: uma função do servidor que recebia só o identificador do registro e confiava nele.
Quer dizer: com o identificador na mão, dava para ler — e em alguns casos alterar — um registro de outra empresa.
Não houve incidente. Mas isso não é mérito, é sorte.
O conserto foi o de sempre, e vale para qualquer sistema multiempresa: a função não pergunta "quem é você?", ela pergunta "este registro é seu?". Lê a empresa dona do próprio registro e compara com a sessão. E a atualização passou a aceitar só uma lista fechada de campos editáveis, porque espalhar o objeto que veio do navegador deixava trocar até a empresa dona.
05Por que as duas coisas aconteceram no mesmo dia
Não foi coincidência, e é o que eu levo desse texto.
Quando você separa papel de pessoa, você é obrigado a escrever, explicitamente, o que cada papel pode fazer. E no momento em que você escreve o que pode, fica impossível não notar o que estava passando sem ninguém olhar.
O sistema fechou o dia com vinte e um mil e oitenta e sete entidades e duzentos e trinta tipos — trinta e sete tipos novos em cinco dias.
Uma última perguntaEsta série acompanha as perguntas, tecnologias, erros e ideias que foram transformando a archē de uma estrutura de organização em um sistema de contexto.
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