

Passei o ano inteiro escrevendo sobre fonte única da verdade enquanto mantinha as minhas próprias pendências em quatro arquivos diferentes.
Sobre como se chega a quatro lugares sem nunca ter decidido, e por que a dúvida é pior que a perda.
Vou contar uma coisa constrangedora.
Enquanto eu escrevia sobre duas memórias que discordavam, sobre apagar dez tabelas, sobre o espelho que cobra pedágio — eu tinha, na minha própria operação, quatro lugares onde uma ideia podia morar.
Uma pasta de ideias. Uma pasta de tarefas. Um backlog. E um roadmap.
Nenhum deles errado. Todos criados com boa intenção, em momentos diferentes, cada um resolvendo um problema real daquele dia.
01Como se chega a quatro
Nunca por decisão. Sempre por acúmulo.
Você cria a pasta de ideias porque precisa de um lugar para jogar o que não cabe agora. Depois cria a de tarefas, porque ideia não é tarefa. Depois o backlog, porque tarefa solta não tem ordem. Depois o roadmap, porque backlog não mostra o tempo.
Cada passo é defensável. O resultado é indefensável.
E o sintoma aparece assim: você lembra de uma ideia, vai procurar, não acha — e fica na dúvida se ela não existe ou se está num dos outros três.
02O que eu medi antes de mexer
Fui ver quando cada um tinha sido tocado pela última vez.
A pasta de ideias e a de tarefas: zeradas semanas antes, num momento de faxina que eu nem lembrava direito. O backlog: parado havia quase três semanas. O roadmap: parado desde junho.
Quer dizer: dos quatro lugares, três estavam mortos e eu continuava achando que tinha quatro.
Esse é o dado que fecha a questão. Não era um problema de organização, era um problema de crença. Eu operava como se tivesse quatro fontes, e na prática tinha nenhuma confiável.

03Ockham, e a navalha que ninguém usa direito
A navalha de Ockham costuma ser citada como "a explicação mais simples é a melhor". Não é bem isso, e a versão original é mais útil: não se deve multiplicar as entidades além do necessário.
Entidades. A palavra é literalmente essa.
E o princípio não é sobre simplicidade estética. É sobre ônus. Cada coisa que você acrescenta ao seu modelo do mundo precisa se justificar, porque ela vai ter que ser mantida, lembrada e explicada para sempre.
O que eu fiz durante um ano foi o contrário: multipliquei lugares sem que nenhum deles tivesse que se justificar contra os outros.
04O que ficou no lugar
Um lugar só: o projeto de cada produto, dentro do próprio sistema.
Ideia, pendência, decisão, tarefa — tudo vira registro ali, com status, responsável e conversa. E o que era pasta virou arquivo morto, com aviso: serve para consultar história, nunca para escrever.
A parte boa não é a arrumação. É que agora eu uso o meu próprio produto para tocar o meu próprio produto, e toda vez que ele é ruim eu sinto na hora. Já escrevi sobre isso no texto quarenta e um: você deixa de ser autor e vira usuário, e usuário reclama.
A parte ruim, e eu preciso dizer: nada disso recuperou o que se perdeu. As ideias que estavam nos três lugares mortos, eu não fui buscar uma por uma. Olhei, julguei e deixei ir.
Dói menos do que eu esperava.
05O que ficou de regra
Duas, e são as que eu levaria para qualquer empresa:
- um assunto, um lugar. Se existem dois, um deles é cópia, mesmo que ninguém admita
- lugar morto se anuncia. Não basta parar de usar: tem que estar escrito que está morto, senão alguém vai acreditar nele daqui a seis meses — e esse alguém, normalmente, é você.
Vinte e três mil novecentas e trinta e uma entidades no dia. Trezentos e cinquenta e dois tipos.
Uma última perguntaEsta série acompanha as perguntas, tecnologias, erros e ideias que foram transformando a archē de uma estrutura de organização em um sistema de contexto.
Comentários
Ainda não há comentários por aqui. O primeiro pode ser o seu.
Posts recentes
ē.60 · Vinte mil coisas novas em quatro dias (e por que o número mente)1 de novembro de 2026
ē.59 · Construí uma casa para quem não tem corpo28 de outubro de 2026
ē.58 · A máquina escolhe. Até onde?23 de outubro de 2026
ē.57 · O direito de sumir18 de outubro de 2026
ē.55 · Quem paga a conta da inteligência8 de outubro de 2026



