Um desvio da série: por que os agentes do Panteon precisam incomodar, e como uma palavra grega de 2.600 anos acabou explicando o projeto para quem o estava construindo.
Eu sempre gostei de filosofia.
Sempre fui questionador.
E quem não foi?
Talvez a diferença seja que algumas pessoas conseguem desligar isso em algum momento.
Eu tenho certa dificuldade.
Uma resposta resolve uma coisa e, quase imediatamente, aparece outra pergunta atrás dela.
- Por quê?
- Por que desse jeito?
- Quem decidiu que precisa ser assim?
- E se estiver errado?
- E se eu inverter?
- E se eu olhar exatamente do lado oposto?
- E se aquilo que estou chamando de problema for apenas consequência de outra coisa?
É meio cansativo.
Principalmente para quem está perto.
Mas também é divertido.
E acho que uma parte da archē nasceu exatamente daí.
Não da tecnologia.
Da pergunta.
01Quando comecei a criar os agentes, eu não queria assistentes
Quando comecei a imaginar agentes dentro do sistema, uma coisa me incomodava.
Eu não queria vinte bonequinhos diferentes fazendo a mesma coisa.
Um para Marketing. Outro para Financeiro. Outro para Estratégia.
Todos educados. Todos prestativos. Todos dizendo:
"Claro. Posso ajudá-lo com isso."
Meu Deus.
Eu queria outra coisa.
Eu queria os caras fodidos.
Queria sentar numa mesa e perguntar:
Se eu pudesse discutir estratégia com alguém, quem eu gostaria que estivesse sentado ali? E operação? E filosofia? E matemática? E comunicação? E arquitetura? E ciência?
Claro que existe uma questão prática aí. Nem toda pessoa que admiro pode simplesmente virar personagem de produto, com nome, rosto, voz e identidade comercial. Então comecei a olhar também para figuras históricas, personagens simbólicos, pensadores, cientistas, filósofos.
E aí a brincadeira ficou séria.
Porque eu percebi que não queria apenas os nomes.
Eu queria o pensamento.
02Colocar Sócrates num avatar não faz dele Sócrates
Esse foi um ponto importante.
É muito fácil colocar uma imagem de Sócrates numa interface.
Escrever "Sócrates, agente de questionamento".
Pronto. Bonito.
Mas isso seria quase uma fantasia visual.
Se eu vou chamar esse agente de Sócrates, quero que exista alguma coisa de Sócrates ali.
Quero sua biografia. Seu contexto. Quero as fontes que nos permitem conhecê-lo. Quero Platão. Quero Xenofonte. Quero entender o método. Quero suas ideias relacionadas.
Quero saber quando uma afirmação é histórica, quando é interpretação e quando simplesmente não sabemos.
Foi daí que o Panteon começou a ganhar outra profundidade.
Hoje, a ideia é que cada um desses agentes tenha sua própria base de conhecimento, trabalhada com RAG, biografia, obras e literatura relacionada.
Mas ainda faltava uma coisa.
Personalidade.
Não quero perguntar alguma coisa para Sócrates e receber uma resposta que poderia ter vindo de Fibonacci trocando apenas o avatar.
Isso não faz sentido.
O conhecimento influencia a resposta. A personalidade influencia a abordagem. E o papel do agente influencia o que ele deve fazer.
São coisas diferentes.
03Sócrates é especialmente perigoso para mim
Porque eu gosto muito dele.
Talvez porque exista alguma identificação com essa coisa insuportável de continuar perguntando.
Às vezes imagino uma conversa com Sócrates e penso que provavelmente nós dois deixaríamos uma terceira pessoa maluca.
Porque eu também tenho esse problema.
Você me dá uma certeza e eu começo a procurar onde ela quebra.
Não necessariamente porque acho que está errada.
Às vezes eu quero justamente descobrir até onde ela continua certa.
Existe uma diferença.
Se uma ideia só funciona enquanto ninguém faz perguntas difíceis, talvez ela não seja uma ideia tão boa assim.
E isso entrou no sistema.
Eu não queria uma inteligência que simplesmente concordasse comigo.
Queria uma inteligência capaz de perguntar:
- Por que você acredita nisso?
- De onde veio essa conclusão?
- O que teria que ser verdadeiro para isso funcionar?
- Existe evidência?
- O que acontece se invertermos a hipótese?
- Qual seria o argumento contrário?
- Você está resolvendo a causa ou apenas aquilo que consegue enxergar?
Isso, para mim, é inteligência muito mais interessante.
04E eu já estava completamente contaminado por IA
Essa história também não começou com o ChatGPT.
Eu já brincava com modelos anteriores.
GPT-2 apareceu em 2019. GPT-3 foi apresentado pela OpenAI em 2020. O ChatGPT público veio depois, em 30 de novembro de 2022, inicialmente baseado na família GPT-3.5.
Quando aquilo explodiu no final de 2022, portanto, a ideia de modelos de linguagem não era totalmente nova para mim.
Eu já sabia o que era transformer. Já acompanhava aquilo. Já brincava.
Mas o ChatGPT mudou a experiência.
Uma coisa é entender intelectualmente que um modelo consegue trabalhar com linguagem.
Outra é conversar com ele.
Aquilo me pegou.
Muito.
E eu sou assim.
Quando alguma coisa me pega, eu vou.
- Quero desmontar.
- Entender.
- Testar.
- Forçar.
- Descobrir onde quebra.
E depois apareceu código.
Ferramentas de desenvolvimento assistidas por IA ficaram melhores.
Codex. Claude. Agentes capazes de navegar por uma base de código, modificar arquivos, entender estruturas maiores.
E isso mudou radicalmente minha capacidade de construir.
Porque havia uma diferença importante.
Eu já sabia, conceitualmente, o que queria construir.
Não cada linha. Não cada implementação.
Mas a lógica.
- Entidades.
- Relações.
- Processos.
- Contexto.
- Fluxos.
- Dependências.
A ideia de que uma coisa deveria provocar outra.
A cadeia lógica estava ficando cada vez mais clara na minha cabeça.
A IA começou a diminuir a distância entre aquilo que eu conseguia imaginar e aquilo que conseguia efetivamente construir.
Isso foi enorme.
05Só que havia uma coisa estranha acontecendo em paralelo
Quanto mais tecnológico o projeto ficava, mais eu voltava para perguntas muito antigas.
- O que é uma coisa?
- O que faz uma coisa ser aquilo que é?
- O que vem primeiro?
- O que causa o quê?
- Como sabemos?
- O que significa conhecer?
- Existe um princípio por trás de coisas aparentemente diferentes?
Isso não nasceu porque eu resolvi:
"Agora meu software terá uma filosofia."
Seria artificial demais.
Eu já carregava essas perguntas.
O estranho foi perceber que outras pessoas estavam fazendo perguntas parecidas há uns 2.600 anos.
06E aí eu dei de cara com a archē
Os pré-socráticos me fascinam por isso.
Porque você volta para um momento em que alguns sujeitos começam a tentar explicar a realidade sem simplesmente aceitar a explicação mítica disponível.
Qual é o princípio? O que existe por baixo de tudo isso?
Tales olha para a água. Anaxímenes pensa no ar. Heráclito coloca o devir no centro.
Anaximandro usa uma palavra maravilhosa:
E aí eu pensei:
Puta merda.
Porque eu estava fazendo exatamente essa pergunta no sistema.
Não:
Qual é a próxima feature?
Mas:
Qual é o princípio que permite organizar todas essas coisas diferentes sem perder aquilo que elas são?
- Pessoa.
- Empresa.
- Projeto.
- Documento.
- Produto.
- Decisão.
- Objetivo.
- Agente.
Todos diferentes.
Mas haveria alguma estrutura fundamental que permitisse ao sistema compreendê-los?
Eu já estava procurando a archē antes de encontrar o nome.
Essa foi a parte bonita.
07E o nome começou a explicar o projeto para mim mesmo
Isso acontece às vezes.
Você cria uma coisa e acha que entende aquilo que está criando.
Depois encontra uma palavra que organiza melhor o próprio pensamento.
archē fez isso comigo.
Porque a pergunta deixou de ser apenas técnica.
- Se eu consigo representar uma empresa como entidades e relações, qual é o princípio dessa organização?
- Se uma decisão gera uma ação, que gera um estado, que produz outra consequência, qual é a cadeia?
- Se uma inteligência observa esse grafo, o que ela realmente conhece?
- Se duas pessoas olham para a mesma entidade de lugares diferentes, estão vendo a mesma coisa?
E aí aparece o observador.
- Depois contexto.
- Memória.
- Tempo.
- Causa.
- Estado.
- Mudança.
Eu sei.
Começa a ficar meio maluco.
Eu gosto dessa parte.
08Só não queria transformar isso em filosofia de boteco
Também existe esse perigo.
Principalmente quando tecnologia começa a usar palavras como consciência, energia, inteligência, quântico, realidade.
Fica fácil falar qualquer coisa.
Eu não quero isso.
Se eu falar de física, quero saber onde termina a física e começa a metáfora. Se falar de filosofia, quero saber qual filósofo está por trás daquela ideia. Se um agente usar uma referência, quero conseguir chegar à referência.
Se não sabemos alguma coisa, prefiro dizer: não sabemos.
Talvez isso também seja uma consequência de gostar de perguntas.
A pergunta verdadeira é mais interessante que uma resposta inventada.
09E foi assim que o Panteon começou a fazer sentido
Não como decoração.
Nem como uma coleção de celebridades históricas.
Eu comecei a enxergá-lo como um conjunto de perspectivas.
Toyoda não existe ali porque eu precisava de um nome japonês para Operação.
Ele representa uma tradição de pensamento sobre fluxo, desperdício, causa, qualidade, melhoria.
Sun Tzu não deveria simplesmente gerar uma SWOT bonita.
Ele deveria olhar conflito, posição, terreno, informação, vantagem.
Sócrates não deveria entregar respostas instantaneamente.
Às vezes ele deveria incomodar.
Fibonacci deveria querer números.
Athena deveria olhar o conjunto.
E isso não significa prender cada agente ao século em que sua inspiração viveu.
Esse é outro ponto importante.
Eles têm uma base. Uma identidade. Uma forma de pensar.
Mas continuam sendo agentes do sistema.
Podem receber skills. Ferramentas. Contexto atual. Dados. Workflows.
Uma skill não é a personalidade do agente.
É uma capacidade que ele pode executar.
Essa separação acabou ficando fundamental.
Isso me permite continuar construindo sem transformar os personagens numa brincadeira engessada.
10No fundo, eu acho que continuo atrás da mesma coisa
Comecei tentando organizar informação.
Encontrei entidades.
As entidades exigiram relações.
As relações exigiram contexto.
O contexto exigiu memória.
A memória encontrou inteligência artificial.
A inteligência trouxe agentes.
Os agentes me devolveram à filosofia.
E a filosofia me devolveu à pergunta.
Talvez tenha sido um círculo.
Ou talvez eu só tenha demorado para perceber qual era o começo.
archē.
O princípio.
E eu gosto de pensar que existe uma pequena ironia nisso tudo.
Estamos construindo um sistema cheio de inteligência artificial, agentes, grafos, automações, banco de dados, código e modelos de linguagem.
Tecnologia que teria parecido magia durante praticamente toda a história humana.
E uma das coisas que mais quero que ela saiba fazer é justamente uma das mais antigas:
fazer uma boa pergunta.
Porque talvez inteligência não comece quando encontramos uma resposta.
Talvez comece alguns segundos antes.
Quando desconfiamos da pergunta que estávamos fazendo.
Este texto não ocupa um número da sequência: a série principal segue de 03 para "Uma entidade sozinha não explica quase nada".
Quantas das certezas que sustentam o seu sistema hoje continuariam de pé se alguém passasse uma tarde perguntando "por quê?" depois de cada resposta?



