Quando percebi que compreender uma empresa exigia atravessá-la
Atrás daquele registro de CRM existe alguém tentando resolver alguma coisa.
Essa pergunta abriu outro buraco.
Porque até ali eu estava tentando conhecer profundamente a empresa.
- O que ela é.
- O que vende.
- Como funciona.
- Quem trabalha nela.
- Quais processos possui.
- Quais objetivos persegue.
- Em qual setor existe.
- Quem são seus concorrentes.
Tudo isso é fundamental.
Mas faltava alguém.
A pessoa para quem aquela estrutura inteira existe.
O cliente.
E não o meu cliente.
01CRM me incomoda justamente aqui
CRM é uma ferramenta extraordinária.
Mas existe uma tendência natural de transformar pessoas em registros comerciais.
- Nome
- Empresa
- Telefone
- Origem
- Etapa
- Valor
- Último contato
Excelente para operar vendas.
Péssimo para responder:
- Por que essa pessoa compraria?
- Por que ela não compraria?
Eu queria atravessar essa camada.
Porque atrás daquele registro existe alguém tentando resolver alguma coisa.
02Então comecei pelo princípio que já estava usando em todo o resto
Se cliente é entidade, ele também possui contexto.
Mas existe uma diferença importante.
Eu não quero saber tudo sobre uma pessoa.
Não preciso.
Não devo.
Quero compreender aquilo que é relevante para a relação legítima que ela possui com a empresa.
Isso estabelece uma fronteira importante.
Significa significado suficiente para compreender a relação.
03E comecei a separar cliente de persona
Essa distinção é importante.
- PERSONAmodelo
- SEGMENTOagrupamento
- CLIENTEentidade real
Uma persona pode ajudar a formular hipóteses sobre determinado grupo.
Mas eu não deveria olhar para Eduardo e concluir:
Ele pertence à persona X, portanto pensa assim.
Não.
O modelo ajuda a perguntar.
A realidade confirma, contradiz ou simplesmente ignora o modelo.
Essa lógica estava aparecendo em todo lugar.
04E eu comecei a pensar menos em perfil e mais em situação
Talvez alguém não compre porque tem determinada idade.
Talvez compre porque alguma coisa aconteceu.
- Mudou de emprego.
- Abriu uma empresa.
- Perdeu um fornecedor.
- Teve um problema.
- Recebeu uma indicação.
- Venceu um contrato.
- Começou a viajar.
- Teve um filho.
- Precisou reduzir custos.
- Decidiu crescer.
Alguma coisa colocou aquela pessoa em movimento.
Isso é muito mais interessante.
05Existe um evento antes de muitas compras
Essa ideia conecta Marketing diretamente ao FLOW.
O evento pode ser externo.
Ou interno.
Mas existe uma transformação.
Então a jornada de compra deixa de ser apenas topo, meio e fundo.
Começa a ser uma sequência de estados.
Isso me interessa muito mais.
06A pergunta passa a ser: o que aconteceu?
Imagine alguém procurando automação.
- Por quê agora?
- A empresa cresceu?
- Está perdendo leads?
- Contratou gente demais?
- O atendimento ficou lento?
- Está usando dez planilhas?
- O dono não consegue mais acompanhar?
Alguma coisa aconteceu.
Se eu consigo compreender esse evento, consigo entender muito melhor a necessidade.
Isso é marketing.
Mas também é contexto.
07E a dor também precisava deixar de ser uma frase genérica
- Falta de tempo.
- Baixa produtividade.
- Dificuldade de gestão.
Essas coisas aparecem em praticamente qualquer apresentação comercial.
Eu queria decompor.
Por exemplo:
Estou perdendo oportunidades porque os pedidos chegam pelo WhatsApp e ninguém sabe quem respondeu.
Isso é muito mais rico.
Temos entidades escondidas aí.
- OPORTUNIDADE
- chega_porCANAL
- deveria_ser_atendida_porRESPONSÁVEL
- possuiSTATUS
E temos uma dor: perda de oportunidade por ausência de propriedade e rastreabilidade do atendimento.
Agora consigo pensar em solução.
08A linguagem do cliente começou a me interessar demais
Porque empresas frequentemente descrevem problemas na linguagem interna delas.
A realidade é a mesma.
A linguagem não.
E isso importa muito para comunicação.
Então comecei a querer guardar não apenas a descrição técnica da dor.
Mas também como as pessoas falam sobre essa dor.
Isso pode vir de:
- entrevistas;
- reviews;
- atendimento;
- pesquisa;
- comentários;
- buscas;
- vendas;
- suporte.
Agora Marketing ganha matéria-prima real.
09Uma dor também pode ser entidade
Claro que eu chegaria nisso.
- nomedemora na resposta comercial
- percebida_porpersona X
- aparece_emjornada Y
- evidenciada_porreviews · entrevistas · tickets
- relacionada_aprocesso comercial
- pode_ser_atendida_porcapacidade Z
Agora uma dor pode se conectar a produtos, conteúdo, campanhas, personas, processos, features e feedbacks.
Isso começa a aproximar Marketing e Produto de uma maneira muito interessante.
10Porque talvez conteúdo devesse nascer daqui
Em vez de abrir uma ferramenta e perguntar:
Me dê 30 ideias de posts para uma empresa de contabilidade.
Podemos perguntar:
Quais perguntas aparecem repetidamente entre clientes de empresas contábeis?
Outra qualidade de investigação.
Ou:
Quais dores possuem evidência, mas ainda não possuem conteúdo relacionado?
Agora temos um gap editorial.
- DOR
- PERGUNTA
- CONTEÚDO
- INTERAÇÃO
- SINAL
LAB entra novamente.
11E conteúdo pode ajudar antes da venda
Isso parece óbvio.
Mas eu queria estruturar.
Uma pessoa possui uma pergunta.
Encontra um artigo.
O artigo ajuda.
Talvez ela nunca compre nada.
Tudo bem.
Mas talvez queira aprofundar.
Aí o conteúdo pode oferecer uma ação.
Não necessariamente "compre agora".
- Quer aplicar isso à sua empresa?
- Quer mapear esse processo?
- Explore as referências utilizadas.
Isso combina muito mais com o LAB.
12E então surgiu uma possibilidade que eu gostei muito
O conteúdo pode conversar.
Literalmente.
Ela responde.
Próxima pergunta.
Pronto.
O artigo acabou de virar diagnóstico.
Isso muda muito minha ideia de conteúdo.
13O LAB pode ser uma porta para o produto sem virar propaganda
Essa é a parte importante.
O objetivo do artigo continua sendo entregar conhecimento.
Mas, se existir uma ação natural relacionada ao assunto, o sistema pode permitir experimentá-la.
- Você lê sobre metascria uma meta
- Lê sobre processosmapeia um processo
- Lê sobre personaexperimenta uma investigação
- Lê sobre Sócratesconversa com o método
- Lê sobre uma cidadeexplora o grafo da região
14E isso começa a ligar SEO com produto
Essa conexão é forte.
Normalmente:
- ARTIGO
- CTA
- LANDING PAGE
- FORMULÁRIO
Funciona.
Mas podemos ter:
- BUSCA
- CONHECIMENTO
- INTERAÇÃO
- CONTEXTO
- MICROEXPERIÊNCIA
- PRÓXIMO PASSO
Eu gosto muito disso.
15E cada interação pode produzir sinal
Com os cuidados de consentimento, privacidade e finalidade.
Se centenas de pessoas chegam a um artigo sobre determinado problema e escolhem repetidamente uma resposta...
temos um sinal.
Não uma verdade universal.
Um sinal.
Isso pode gerar uma pergunta para LAB.
Por que tantas empresas estão relatando isso?
Pesquisa.
Novo artigo.
Talvez nova skill.
Talvez nova solução.
Olha o ciclo novamente.
16O cliente do cliente começa a influenciar o produto
Essa talvez seja a parte mais importante.
Imagine que vários clientes de pousadas reclamam de dificuldade para entender políticas de cancelamento.
Isso pode gerar:
- conteúdo;
- melhoria de comunicação;
- mudança de interface;
- workflow;
- novo campo;
- automação;
- produto.
A voz do mercado deixa de ficar presa no departamento de Marketing.
Ela pode tocar a arquitetura.
- CLIENTE FINAL
- SINAL
- EMPRESA
- ON
- HIPÓTESE
- PROJETO
- MUDANÇA
FLOW novamente.
17E o feedback deixa de ser uma caixa de texto esquecida
Feedback é uma entidade riquíssima.
- sobrePRODUTO
- mencionaDOR
- ocorreu_emETAPA DA JORNADA
- originouHIPÓTESE
- contribuiu_paraPROJETO
Agora consigo responder:
Quais mudanças de produto nasceram de problemas reais dos clientes?
Isso é memória de produto.
18E reclamação também pode virar conhecimento
Sem transformar cliente insatisfeito em dataset decorativo.
Uma reclamação é um evento.
Algo esperado não aconteceu.
Isso é extremamente informativo.
- Qual expectativa?
- Qual falha?
- Qual processo?
- Foi resolvida?
- Quanto demorou?
- Aconteceu novamente?
- Em quais clientes?
Talvez o problema não seja Atendimento.
Talvez esteja em Operação, Produto, Logística ou Comercial.
A reclamação é apenas onde o problema apareceu.
19O ponto de contato não é necessariamente a origem da dor
Um cliente reclama no suporte.
Mas o erro nasceu no comercial.
Ou no produto.
Ou no contrato.
Ou na cobrança.
Se relacionamos eventos e entidades, conseguimos tentar seguir a cadeia.
Isso é muito mais interessante do que contar tickets por departamento.
20E comecei a pensar na jornada como grafo
Não necessariamente uma linha.
Porque pessoas não fazem isso bonitinho.
Elas pesquisam, somem, voltam, perguntam para alguém, leem review, entram pelo Instagram, visitam o site, recebem indicação, voltam pelo Google, falam no WhatsApp, param e retornam dois meses depois.
É grafo.
Claro que é.
Eu deveria ter desconfiado.
21E cada ponto da jornada pode ter perguntas diferentes
- antes do problemaComo saber se preciso disso?
- durante a pesquisaQuais alternativas existem?
- na comparaçãoQual é melhor para meu caso?
- antes da compraPosso confiar?
- depoisComo começo?
- durante o usoEstou fazendo certo?
- em dificuldadeComo resolvo?
- na renovaçãoAinda vale a pena?
Isso é ouro editorial.
E também produto.
22A campanha começa a deixar de ser apenas distribuição
- buscaOBJETIVO
- fala_comPERSONA
- sobreDOR
- apresentaPRODUTO
- utilizaCONTEÚDO
- distribui_emCANAL
Agora consigo perguntar:
- Quais campanhas tentaram resolver esta mesma dor?
- Que mensagens funcionaram para este segmento?
- Qual conteúdo trouxe pessoas que depois avançaram?
Isso é memória de marketing.
23E o Studio ganha ainda mais contexto
Porque agora não preciso pedir uma imagem bonita.
Tenho:
- persona;
- dor;
- momento;
- produto;
- campanha;
- canal;
- objetivo;
- marca;
- conteúdo de origem.
Então o criativo pode nascer de contexto.
Recebe uma estrutura.
24E o Comercial também ganha outra conversa
Agora existe contexto para conversar.
Não para manipular.
Para não começar do zero.
25Mas aqui aparece uma linha que eu considero fundamental
Só porque conseguimos coletar alguma coisa não significa que devemos.
Essa arquitetura pode facilmente virar uma máquina de vigilância se for mal utilizada.
Eu não quero isso.
Então contexto precisa sempre conviver com:
- finalidade;
- consentimento;
- minimização;
- acesso;
- retenção;
- governança.
Se eu não preciso de uma informação para entregar valor ou cumprir uma finalidade legítima, talvez não deva coletá-la.
Mais dados não significam automaticamente mais inteligência.
Às vezes significam só mais risco.
26E isso vale especialmente para o ME
A fronteira entre contexto empresarial e contexto pessoal precisa ser muito clara.
archēME pode conhecer profundamente o observador porque o próprio observador está construindo essa memória para si.
Isso não significa que uma empresa deva ter acesso àquilo.
- contextosdiferentes
- permissõesdiferentes
- finalidadesdiferentes
Essa separação vai ser fundamental.
27E comecei a perceber que "cliente 360" é uma expressão que eu provavelmente não quero usar
Porque ninguém precisa conhecer uma pessoa em 360 graus.
É uma pretensão meio assustadora.
É diferente.
Essa diferença filosófica acaba virando decisão de arquitetura.
E eu gosto quando isso acontece.
28Então o mapa ficou maior
Não é uma cadeia.
É um sistema de relações.
29E foi aí que comecei a enxergar o verdadeiro potencial comercial dos setores
Não é apenas vender archē para hotelaria.
É chegar numa empresa daquele mercado já sabendo quais perguntas provavelmente importam.
- O vocabulário.
- As entidades comuns.
- Os processos possíveis.
- Os indicadores.
- As regulações a verificar.
- As dores recorrentes.
- As jornadas.
- As tecnologias.
- As referências.
E então dizer:
Agora me mostre onde sua empresa é diferente.
Essa frase é muito importante.
Porque o valor não está apenas no que sabemos sobre o setor.
Pode ser justamente ali que mora sua vantagem competitiva.
30Isso muda o diagnóstico
Não quero uma entrevista gigantesca perguntando tudo indiscriminadamente.
Quero uma entrevista que se adapte.
- Começa amplo.
- Identifica a empresa.
- Encontra setor.
- Levanta hipóteses.
- Pergunta.
- A resposta muda a próxima pergunta.
- Uma relação descoberta abre outra investigação.
- Uma lacuna chama pesquisa.
- Uma inconsistência chama validação.
Agora o onboarding começa a parecer menos um formulário...
e mais uma conversa que vai construindo um modelo da realidade enquanto acontece.
E eu já tinha personagens perfeitos para isso.
- Leteiapoderia conduzir a descoberta
- Métispoderia procurar padrões e lacunas
- Athenavalidaria contexto, consistência e encaminhamento
- o Panteonentraria quando alguma especialidade fosse necessária
- COREreceberia as entidades
- ONinterpretaria
- FLOWcomeçaria os movimentos
- OSsaberia quais capacidades estavam disponíveis
- LABpesquisaria aquilo que ainda não conhecíamos
De repente, quase tudo que eu tinha construído começava a aparecer dentro de uma única experiência.
Uma conversa.
Só que, por baixo dela, o sistema estava fazendo algo muito maior.
Esta série acompanha as perguntas, tecnologias, erros e ideias que foram transformando a archē de uma estrutura de organização em um sistema de contexto.



