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ē.04 · Antes de virar sistema, ele foi um monte de notas

Da pergunta à archē

ē.04 · Antes de virar sistema, ele foi um monte de notas

Carlos Eduardo Tobias

24 de janeiro de 2026
2025 → 2026 · parte 04

Antes de existir código, existiu um cofre de notas. E foi ali, brincando com as próprias informações, que a pasta começou a perder para a relação.

Tem uma parte dessa história que eu não consigo pular.

O Obsidian.

Porque, olhando hoje para o que a archē está se tornando, consigo reconhecer várias ideias que começaram a ficar visíveis para mim ali.

Não estou dizendo que descobri entidades, grafos ou conhecimento conectado.

Calma.

A humanidade pode continuar tranquila.

Eu não inventei o grafo.

O interessante foi outra coisa.

Eu comecei a experimentar aquilo com as minhas próprias informações.

E isso mudou bastante a maneira como eu pensava.

01Eu sempre fui organizado. O que é meio contraditório.

Quem convive comigo talvez questione essa frase.

Com alguma razão.

Eu consigo ser uma bagunça monumental.

Por fora.

E principalmente por dentro.

Mas existe uma exceção curiosa.

Meu trabalho. Minhas pastas. Meus arquivos. Meus clientes. Meus projetos.

Isso sempre teve uma organização quase obsessiva.

  • Empresa.
  • Cliente.
  • Projeto.
  • Financeiro.
  • Administrativo.
  • Comercial.
  • Documentos.

Eu precisava saber onde as coisas estavam.

Talvez justamente porque minha cabeça já tivesse coisa demais acontecendo ao mesmo tempo.

Organizar o lado de fora sempre foi uma maneira de conseguir pensar.

E então apareceu o Obsidian.

02No começo parecia um aplicativo de notas

Só que rapidamente percebi que não precisava ser apenas isso.

Uma nota podia apontar para outra. Uma pessoa podia estar relacionada a uma empresa. Uma empresa a um projeto. Um projeto a uma reunião. Uma reunião a uma decisão.

E aquela decisão podia voltar para uma pessoa.

não era mais PASTA SUBPASTA ARQUIVO onde eu guardei isso? podia ser volta PESSOA EMPRESA PROJETO REUNIÃO DECISÃO com o que isso está conectado?
fig. 01À esquerda a árvore só desce. À direita a linha pontilhada é o que a pasta nunca conseguiu desenhar: a decisão voltando para quem a tomou.

Isso parece uma diferença pequena.

Para mim não foi.

Porque a pasta responde:

Onde eu guardei isso?

A relação permite outra pergunta:

Com o que isso está conectado?

Eu comecei a gostar muito mais da segunda.

03O grafo tornou visível uma coisa que eu já estava procurando

Entidades e relações não nasceram no Obsidian.

Claro que não.

Grafos, ontologias, bancos relacionais, knowledge graphs e sistemas de conhecimento existem há muito tempo.

O que o Obsidian fez foi muito mais pessoal.

Ele me deixou brincar com essa lógica sem precisar construir uma aplicação inteira primeiro.

  • Eu podia criar uma pessoa.
  • Relacioná-la a uma empresa.
  • Criar propriedades.
  • Criar templates.
  • Criar consultas.
  • Criar relações.
  • Observar o grafo.
  • Mudar a estrutura.
  • Quebrar.
  • Refazer.

E fui longe nisso.

Muito longe.

04Só que, como sempre, começou a me incomodar

Isso também é um padrão meu.

Eu encontro uma coisa que adoro. Uso. Exploro. Começo a enxergar possibilidades.

E algum tempo depois estou perguntando:

  • Por que não dá para fazer isso?
  • E aquilo?
  • E se funcionasse assim?
  • E se essa informação aparecesse aqui?
  • E se eu pudesse conversar com essa entidade?
  • E se essa tela soubesse qual entidade estou olhando?

O Obsidian me dava uma liberdade extraordinária para estruturar conhecimento.

Mas eu queria outra experiência de interface.

Queria abrir Comercial e sentir que estava em Comercial. Abrir Financeiro e enxergar Financeiro. Entrar em um cliente e ter uma visão construída para aquele cliente. Entrar em um projeto e ter outra.

Eu não queria abandonar as relações.

Queria justamente o contrário.

Queria colocar uma interface em cima delas.

05Então comecei a fazer painéis

  • Painel Comercial.
  • Painel de Clientes.
  • Painel Financeiro.
  • Painel Administrativo.
  • Indicadores.
  • Consultas.
  • Filtros.
  • Views.
  • Cards.
  • Navegação.

Comecei a colocar JavaScript. Mexer em CSS. Criar código.

Muito antes dessa fase atual de agentes de programação capazes de olhar um projeto inteiro.

Era uma relação bastante menos elegante.

funciona pediacopiavacolava quebravaparava voltavaalterava funcionavafuncionava e fui construindo.
fig. 02Nenhum dos pontos abaixo da linha foi planejado. Eles são metade do método — e a linha continua subindo depois de cada um deles.

Eu pedia código para o ChatGPT. Copiava. Colava. Quebrava. Voltava. Alterava. Pedia outra coisa. Copiava de novo. Mexia na mão. Funcionava. Parava de funcionar. Funcionava de novo.

E fui construindo.

Algumas coisas ficaram tão boas que eu olhava e pensava: isso poderia ser um produto.

Poderia empacotar. Documentar. Colocar numa prateleira. Talvez vender.

Não fiz.

Eu nunca fui muito bom em mostrar as coisas que construo.

Engraçado falar isso agora, justamente enquanto estou preparando um site inteiro para mostrar uma delas.

Talvez tenha alguma síndrome do impostor aí.

Talvez perfeccionismo.

Talvez simplesmente aquela sensação de:

ainda não está pronto.

Só que existe um pequeno problema com essa frase.

Nunca está.

06O Obsidian começou a me ensinar uma coisa maior

Eu podia ter uma única entidade e construir várias maneiras de observá-la.

Isso começou a conversar muito com algo que já estava acontecendo na minha cabeça.

Uma empresa não precisava existir novamente dentro de Comercial. Depois novamente dentro de Financeiro. Depois novamente em Projetos.

Ela podia existir uma vez.

Empresa Alfa uma linha só comercial financeiro projetos nome cnpj estagio_funil receita ultima_conversa inadimplencia responsavel projetos_ativos nome cnpj estagio_funil receita ultima_conversa inadimplencia responsavel projetos_ativos nome cnpj estagio_funil receita ultima_conversa inadimplencia responsavel projetos_ativos
fig. 03Os oito campos são os mesmos nos três painéis. O que muda é quais acendem. Isso é uma lente — não uma cópia.

E cada área enxergá-la de acordo com seu contexto.

A mesma entidade.

Outra lente.

Isso me fascinava.

Porque começava a resolver aquela pergunta que vinha aparecendo desde o início:

Por que estou cadastrando a mesma realidade várias vezes?

Mas ainda havia algo faltando.

07Eu queria conversar com aquilo

Não apenas consultar. Não apenas filtrar. Não apenas clicar.

Eu queria poder abrir uma empresa e perguntar:

  • numa empresaO que está acontecendo aqui?
  • num projetoO que está travando?
  • no financeiroO que merece minha atenção?
  • no comercialOnde estamos perdendo oportunidades?
  • num clienteMe conta a história dessa relação.

E o sistema entender o que significa aqui.

Sem precisar começar:

"Estou falando do projeto X, da empresa Y, que começou no dia tal..."

Aquilo que eu estava modelando como informação precisava começar a virar contexto para inteligência.

Foi aí que duas histórias começaram a se encontrar.

A organização do conhecimento.

E a inteligência artificial.

08Porque eu já vinha acompanhando IA havia algum tempo

Minha relação com IA não começou quando decidi colocá-la na archē.

Ela veio antes.

Eu já brincava com modelos anteriores ao ChatGPT.

Quando GPT-3 apareceu, aquilo já me interessava muito.

Eu já tinha ido atrás de entender transformer, modelos de linguagem, o que estava acontecendo por trás daquela mudança.

Quando o ChatGPT explodiu no final de 2022, a sensação foi diferente.

A tecnologia deixou de ser apenas algo que eu acompanhava.

Ela virou uma coisa com a qual eu podia pensar junto.

E eu fiquei pilhado.

Muito.

O que também não é exatamente uma novidade para quem me conhece.

Quando alguma coisa me interessa, tenho uma certa dificuldade em fazer aquilo moderadamente.

Comecei a experimentar tudo.

  • Modelos.
  • Prompts.
  • APIs.
  • Automação.
  • Imagem.
  • Texto.
  • Código.
  • Agentes.
  • RAG.
  • Ferramentas diferentes.

Mas havia uma limitação que continuava aparecendo.

09A IA era inteligente. Mas não conhecia meu mundo.

Ela sabia uma quantidade absurda de coisas.

Mas não sabia necessariamente:

  • quem era meu cliente;
  • como eu organizava meus projetos;
  • qual decisão havíamos tomado ontem;
  • como uma empresa estava relacionada a outra;
  • qual documento era importante;
  • o que aquele campo significava para mim;
  • qual era o objetivo daquele projeto.

E isso me incomodava.

Porque do outro lado eu estava construindo exatamente isso.

Contexto.

10O Obsidian tinha o contexto. A IA tinha a inteligência.

Essa simplificação não é tecnicamente perfeita.

Mas ela representa bem o que eu sentia.

CONHECIMENTO RELAÇÕES CONTEXTO IA entidades, documentos links, propriedades histórico conversar, analisar +++ o que aconteceria? não um chat no canto direito da tela. uma IA que habita a estrutura. sabe onde está · o que observa · com quem se relaciona e, principalmente, quando não sabe
fig. 04A última linha é a mais difícil de construir. Um sistema que reconhece o próprio limite vale mais que um que responde sempre.

De um lado:

  • entidades;
  • links;
  • propriedades;
  • documentos;
  • histórico;
  • relações.

Do outro:

uma inteligência capaz de conversar, interpretar, escrever, analisar e programar.

E comecei a imaginar o encontro.

O que aconteceria?

Essa pergunta é muito mais importante para a história da archē do que parece.

Porque foi ficando claro para mim que eu não queria simplesmente colocar Chat com IA no canto direito de um sistema.

Eu queria que a IA habitasse a estrutura.

Que soubesse onde estava. O que estava observando. Com quem aquilo se relacionava. O que havia acontecido.

E, principalmente, quando não soubesse alguma coisa.

11Então veio outra transformação

Até esse ponto eu ainda construía muita coisa naquela lógica:

  • ChatGPT aberto.
  • Código.
  • Copiar.
  • Colar.
  • Editar.
  • Testar.
  • Voltar.

Até que as ferramentas de desenvolvimento com IA começaram a mudar de categoria.

Codex. Claude Code. Modelos melhores.

Ferramentas capazes de trabalhar sobre projetos maiores, navegar arquivos, entender dependências, alterar estruturas e participar de uma tarefa de desenvolvimento com muito mais contexto.

Gemini também passou a fazer parte desse conjunto de ferramentas que eu usava.

E aí aconteceu algo bastante profundo para mim.

A distância entre imaginar e construir diminuiu violentamente.

Eu vinha de outro mundo.

Já tive aplicação em .NET.

Depois fui para WordPress.

WordPress me deu uma liberdade enorme durante muito tempo.

  • Construi sites.
  • Sistemas.
  • Estruturas.
  • Customizações.
  • Automação.

E continuo tendo enorme respeito por tudo que ele permitiu fazer.

Mas havia sempre um preço.

  • Plugin.
  • Compatibilidade.
  • Interface.
  • Limitação.
  • Código.
  • Outro plugin.
  • Mais uma adaptação.

Mais uma gambiarra que, seis meses depois, ninguém lembrava por que existia.

E de repente eu estava olhando para uma IA e dizendo:

Eu quero que essa entidade funcione assim.

E começando a construir a interface que eu queria.

Não a interface que uma ferramenta me permitia ter.

Essa diferença, para mim, foi brutal.

12Mas a IA não criou a arquitetura

Isso é importante.

Ela acelerou minha capacidade de construí-la.

  • Questionou.
  • Ajudou.
  • Programou.
  • Refatorou.
  • Encontrou problemas.

Permitiu testar ideias numa velocidade que antes seria impraticável para mim.

Mas aquela estrutura já estava sendo formada.

  • Entidades.
  • Relações.
  • Contexto.
  • Processos.
  • Dependências.

A ideia de que uma mudança produz consequências.

A cadeia lógica. O fluxo. As perguntas.

O que a IA fez foi transformar uma coisa que poderia continuar durante anos como:

"um dia eu quero fazer..."

em algo que eu conseguia abrir na tela.

E mexer. E quebrar. E reconstruir.

13Só que quanto mais eu conseguia construir, mais estranhas ficavam minhas perguntas

Porque agora já não era mais:

Como faço esse botão?

Começava a ser:

O que esse botão representa?

antes — como faço esse botão? agora — o que ele representa? um botão entidade relação estado processo quem sabe que entidademodifica? qual relaçãocria? isso alteraalgum estado? deveria dispararum processo? quem deveriasaber disso? existe uma decisão antes. existe uma consequência depois.
fig. 05O botão continua sendo um botão. O que mudou foi o número de perguntas que ele precisa responder antes de existir.
  • Por que existe?
  • Que entidade modifica?
  • Qual relação cria?
  • O que acontece depois?
  • Quem deveria saber que isso aconteceu?
  • Isso altera algum estado?
  • Isso deveria disparar um processo?
  • Existe uma decisão antes?
  • Existe uma consequência depois?

E olha a ironia.

Eu tinha acabado de ganhar ferramentas absurdamente poderosas para produzir código.

E comecei a gastar cada vez mais tempo perguntando:

Por quê?

Foi aí que a tecnologia começou a me devolver para a filosofia.

14Porque antes de construir qualquer coisa existe uma pergunta

Isso me levou novamente aos gregos.

Aos pré-socráticos.

À tentativa quase insana de olhar para o mundo inteiro e perguntar:

Existe alguma coisa fundamental por trás de toda essa diversidade?

  • Água?
  • Ar?
  • O ilimitado?
  • Mudança?
  • Ser?

Eles estavam tentando encontrar princípios.

Não estou comparando um software empresarial com a investigação sobre a natureza do cosmos.

Seria um pouco pretensioso.

Só um pouco.

Mas a estrutura da pergunta me fascinava.

  • O que vem antes?
  • Qual é o princípio?
  • Qual é a unidade mínima?
  • O que permanece quando as formas mudam?

E isso era exatamente o que eu estava tentando descobrir no meu pequeno universo.

Uma pessoa pode aparecer em dez módulos. Continua sendo uma pessoa.

Uma empresa pode assumir dez relações. Continua sendo aquela empresa.

Uma entidade pode ser observada por Comercial, Financeiro, Projetos ou uma IA.

A entidade permanece.

A perspectiva muda.

Então comecei a perceber que talvez a filosofia não estivesse sendo adicionada ao projeto.

Talvez ela já estivesse nele.

Eu só ainda não tinha dado nome.

E, como quase sempre aconteceu nessa história, uma resposta acabou criando a próxima pergunta.

Se existe alguma coisa que permanece enquanto os contextos mudam...

e aí aparece

quem está olhando?


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Esta série acompanha as perguntas, erros e descobertas que deram origem à archē.